Trabalho de conclusão de curso reflete sobre a relação entre turismo sexual e estereótipos de mulheres negras

TCC analisou fenômenos como o Carnaval para compreender a formação de imagens estereotipadas das mulheres negras brasileiras

 

Apresentado no fim de 2019, o Trabalho de Conclusão de Curso da aluna Estéfani Brito da Silva, sob orientação do professor Reinaldo Teles, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), propõe uma análise do chamado turismo sexual a partir da imagem estereotipada da mulher negra brasileira. A aluna conta que escolheu o tema depois de assistir ao documentário Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado, de Joel Zito Araújo, que aborda a exploração sexual de mulheres brasileiras que sonham com um marido europeu e acabam submetidas à práticas abusivas. Para a elaboração do trabalho, Estéfani também se apoiou na disciplina Epistemologia do Conhecimento em Turismo, ministrada pela professora Gleice Guerra

A turismóloga explica que as mulheres negras estão na base da pirâmide social, com os menores salários e as maiores taxas de ocupações precárias e desemprego de toda a população. Quando a proliferação de estereótipos que hiperssexualizam a mulher negra se soma à esse quadro de vulnerabilidade social, uma das consequências é a exploração sexual que atinge muitas mulheres e meninas negras. No caso do turismo sexual, a aluna destaca a influência do carnaval na disseminação de imagens estereotipadas e sexualizadas das mulheres negras brasileiras. Segundo o ensaio Racismo e sexismo na cultura brasileira, da professora e antropóloga Lélia Gonzalez, “é no momento do desfile de carnaval que a mulher negra deixa de ser anônima para transformar-se em símbolo de desejo e adoração dos estrangeiros”.

Quem nunca ouviu a expressão "mulata tipo exportação"? Além de objetificarem mulheres negras ao compará-las a mercadorias, expressões como essa também evidenciam outro aspecto apontado por Estéfani em seu trabalho: os estereótipos promovem um padrão de beleza negra. Corpos curvilíneos, não retintos (ou seja, com um tom de pele mais claro) e rostos com traços finos correspondem à aparência considerada ideal. Para além do caráter excludente dos padrões de beleza em geral, é preciso questionar por que a imagem socialmente desejada da mulher negra enaltece o embranquecimento de suas características, e como esse fato se relaciona com a ideia de racismo estrutural. 

 

Ampliando os estudos sobre negritude e racismo

Questionada sobre a relevância do tema de seu trabalho para o meio acadêmico, a aluna observa que as causas das minorias sociais estão cada vez mais presentes na universidade. No entanto, ainda permanecem muito restritas aos espaços dos coletivos estudantis, sendo pouco abordadas na produção acadêmica. “Se um estudante não busca por si próprio essas informações e não busca se envolver com essas questões, dificilmente ele terá acesso”, afirma. Estéfani acredita que as pautas raciais ainda precisam avançar muito e cita o caso do menino João Pedro, recentemente assassinado no Rio de Janeiro, para exemplificar a importância de que se fale mais sobre o racismo em todos os lugares possíveis.

A estudante destaca também a necessidade de se falar da história do povo negro em sua completude, que abarca muito mais do que a questão da escravidão. “Muito além da escravidão, o povo negro sempre foi forte, organizado e resistente, por mais que sempre tenham buscado apagar e silenciar suas histórias”. Para quem deseja adentrar esse campo de estudo, ela recomenda o livro Rastros de Resistência – Histórias de Luta e Liberdade do Povo Negro, do escritor brasileiro Ale Santos.

 

Estéfani Brito da Silva (segunda à esquerda) com o seu orientador Reinaldo Teles e professoras convidadas durante a apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso. Foto: acervo pessoal.