Tese da ECA é premiada no Tese Destaque USP

Para a doutora Maíra Carneiro Bittencourt Maia, receber a notícia de que a sua tese havia sido indicada ao Prêmio Teses Destaque USP 2017 “já foi uma surpresa”, posto que não são os pesquisadores que inscrevem suas teses e sim os próprios programas de pós-graduação que escolhem qual será indicada.

A tese de Maíra, contudo, não parou na indicação: neste mês, ela foi informada de que a pesquisa havia ganhado o primeiro lugar na categoria Ciências Sociais Aplicadas da premiação, que, desde 2013, é concedida anualmente pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação às três melhores teses defendidas na Universidade no ano anterior, em nove categorias diferentes.

Denominada O Príncipe Digital: estruturas de poder, liderança e hegemonia nas redes sociais, a tese foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), sob orientação do professor Eugênio Bucci, do Departamento de Informação e Cultura (CBD), e defendida em 2016.

Segundo a pesquisadora, a tese se propõe “ao entendimento das atuais problemáticas sociais e políticas que afetam o Brasil e, por consequência, a comunicação do país”. Para isso, a pesquisa retoma o conceito de Príncipe cunhado por Nicolau Maquiavel e revisitado por Antonio Gramsci (com o Moderno Príncipe) e Octavio Ianni (com o Príncipe Eletrônico), “que auxiliaram o processo de compreensão dos modelos e necessidades das sociedades de vários tempos”, de modo a propor uma nova teoria, a do Príncipe Digital, uma figura de poder do século XXI e das redes digitais.

Além da teoria, Maíra revela que “como jornalista, sentia que era preciso ouvir as pessoas e perceber na população os indicativos que levariam às conclusões sobre o príncipe digital”. Assim, ela adentrou o campo da pesquisa empírica, através do suporte metodológico da Grounded Theory (GT), em que a própria população envolvida aponta os dados, para analisar as respostas de 601 entrevistados e, a partir deste material, observar 74 manifestações populares ocorridas entre 2013 e 2015 e acompanhar o comportamento de 354 líderes de opinião nas redes sociais, de modo a dar suporte às reflexões teóricas levantadas na tese.

Assim, o conceito pensado por ela lança luz às formas como, na era das redes digitais, estão estruturadas as categorias poder, hegemonia e liderança, “pilares de todos os modelos teóricos de príncipes existentes até o momento”. De acordo com a pesquisadora, esta compreensão é importante para que se possa entender os fenômenos do nosso tempo, “como as grandes manifestações sociais e os tipos de relações existentes nas redes sociais”.

Em 2016, a tese de Maíra foi publicada pela Editora Appris. Foto: Acervo pessoal.

“A tese aponta que se vive não só uma crise no jornalismo, mas em todo o modelo de organização da sociedade. Foi o entendimento das características dos Príncipes, influenciadores de outros tempos, que me fez perceber que a resposta para o jornalismo do nosso tempo poderia se encontrar em um âmbito muito mais profundo”, comenta. “Era preciso então compreender as raízes da transformação e pensar naquilo que mudou na vida social, nas estruturas de poder, nos estilos de vida da sociedade interconectada, para depois compreender e tentar explicar e aplicar modelos de disseminação de informações”.

Desse modo, a tese chega, entre outras conclusões, ao fato de que, na era das redes digitais, "não é possível apenas apelar para uma cópia dos produtos que fazem sucesso na internet", já que os utilizadores não esperam por uma facebookização do jornalismo, mas sim por profissionais de comunicação que apresentem conteúdos aprofundados e confiáveis. "É importante que os jornalistas conheçam a estrutura social do momento, que é o que eu tento descrever com o Príncipe Digital, para que possam agir pensando nela e saber que tipo de jornalismo produzir," aponta Maíra.

Para Maíra, o prêmio “é um indicativo de que estamos no caminho certo, apesar de todas as dificuldades com a pesquisa no nosso país e a pesquisa principalmente na nossa área”, bem como uma grande distinção no currículo. “Ele agrega muito à minha trajetória profissional, porque é um reconhecimento de muita distinção da USP”, afirma. “Esse prêmio é uma coisa que eu nunca esperava. Eu sou do interior do Rio Grande do Sul, e a primeira vez que eu fui a São Paulo foi para a seleção do doutorado. Perceber hoje que eu consegui entrar na USP e sair com uma premiação dessas é algo muito gratificante, de romper barreiras mesmo”. 

Ela destaca, ainda, o trabalho de seu orientador, “que acompanhou todo o processo, sugeriu e deu ideias”, algo essencial para a conquista do prêmio. Para Eugênio Bucci, a tese "trata-se de um trabalho original e muito esclarecedor, que traz uma contribuição valiosa para os pesquisadores do campo, as escolas de comunicação e os profissionais". O professor afirma ainda que o prêmio é "uma honra muito grande" e um reconhecimento à "escola, ao PPGCOM e a um trabalho duro, que no final, valeu a pena".

Além do Prêmio Tese Destaque USP, a pesquisa de Maíra foi indicada ao Prêmio Capes de Tese 2017, cujo resultado deve ser divulgado na próxima semana. A cerimônia de premiação da USP ocorre em 28 de setembro, à partir das 14h, no Conselho Universitário (R. da Reitoria, 374, Cidade Universitária). 

Texto: Victória Martins
Imagem de capa: Rodrigo Siqueira