Tese sobre hip hop, rap e funk levanta novas estratégias para a educação

Identificar quais aspectos poderiam ser mais efetivos na formação de crianças e adolescentes é um tema recorrente na pesquisa em educação no país. Uma das questões nesse sentido seria, por exemplo, saber quais as práticas e preferências culturais dos jovens levariam a um melhor aproveitamento dos estudos. Foi pensando nessa aproximação que Rogério Pelizzari de Andrade defendeu a tese de doutorado Rap, funk, pop internacional: percepções dos professores sobre as referências musicais dos alunos, sob orientação do professor Adilson Citelli para o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Comunicação  (PPGCOM).

Rogério conta que no mestrado sua pesquisa estava direcionada para o papel das mídias no desenvolvimento da prática leitora entre estudantes da educação básica. No entanto, depois de tabular os dados de um questionário, ficou surpreso ao constatar “o quanto a música estava presente na vida destas pessoas e, mais do que isso, como ela atravessava o tempo dedicado à educação. De acordo com as respostas, os alunos passavam mais tempo ouvindo suas canções favoritas do que estudando e, não raro, estas duas atividades eram realizadas de maneira sobreposta, com as tarefas sendo acompanhadas assiduamente de uma trilha sonora”, conta. Além disso, a utilização massiva de smartphones, caixas de som e fones de ouvido entre os jovens fizeram com que Rogério  questionasse o quanto destas músicas poderiam estar presentes em sala de aula. Assim surgiu o tema de sua pesquisa de doutorado.


Rogério Andrade Pelizzari na defesa de sua tese de doutorado Rap, funk, pop internacional: percepções dos professores sobre as referências musicais dos alunos. Foto: acervo pessoal

Segundo o pesquisador, ele mesmo possuía um conhecimento superficial do que os alunos escutavam, mesmo sendo professor universitário desde 2010. Desta forma, viu nos gêneros do funk, rap e hip hop uma utilização em potencial para discutir conteúdos, estimular o debate em sala de aula e fixar conceitos, além de ser uma forma de conhecer os alunos. Uma extensa pesquisa de campo foi levantada em cinco escolas estaduais da rede pública de ensino, localizadas na cidade de São Paulo. Entre março e maio de 2018, 1.482 alunos responderam a um questionário com 10 questões e 36 professores foram entrevistados.

O assunto, apesar de muito atual, já vem sido debatido há décadas por alguns estudiosos como Martín-Barbero e Muniz Sodré com o tema da crise da educação. Já Sérgio Abranches discorre sobre este contexto de instabilidade e tensão a partir de um olhar mais amplo, que envolve a sociedade como um todo. De acordo com Rogério, apesar de tratarem o problema de perspectivas distintas, “eles parecem convergir em ao menos três pontos: o primeiro é que vivemos em um período de transição, em que práticas, estruturas e sistemas tradicionais estão em franco declínio dando lugar a novas formas e relações. O segundo é que estas experiências disruptivas estão vinculadas às aceleradas transformações tecnológicas. E o terceiro ponto é que as experiências tendem a ser mais bem-sucedidas, neste cenário de crise, às iniciativas que não ignorem as características, o perfil, as expectativas e as demandas locais”.

Os professores entrevistados pelo pesquisador lidaram com esse contexto com uma postura mais crítica, já que entendem que desenvolver atividades pedagógicas apenas com o gosto dos estudantes seria ruim, pois os jovens podem se manter isolados em seu conhecimento cotidiano e perderiam a oportunidade de conhecer e descobrir coisas novas. Outro ponto de destaque, seria a qualidade das músicas (sobretudo as letras), que foram classificadas negativamente por alguns docentes. No entanto, houve aqueles que foram favoráveis à ideia de utilizar estes gêneros, uma vez que o rap possui em suas letras um tom de denúncia e conscientização sobre os problemas sociais.

Esse aspecto é um tanto amplo e diverge opiniões, que, segundo o pesquisador, por conta da rotina excessiva dos professores e o baixo nível de conhecimento que possuem em relação aos alunos, não são possíveis de serem muito conhecidos e aprofundados. Em relação a isso, Rogério afirma que “apesar de saberem que os estudantes ouvem principalmente rap e funk, ignoram quem sejam os artistas e quais são as canções, inclusive entre os mais famosos. E a rotina exaustiva do professor, que não dispõe de meios materiais e nem de tempo, consumido pelas jornadas duplas, às vezes triplas, quádruplas, limita suas possibilidades para o planejamento das aulas.”

O pesquisador acredita que a música ocupe um espaço significativo na vida dos alunos e não deve ser restrita apenas ao entretenimento, como também pode ser um mecanismo de aproximação e compreensão de uma visão de mundo: “é importante saber o que os estudantes ouvem e, no limite, falar com eles sobre o tema, eventualmente para intermediar uma discussão qualquer, negociar situações e experiência ou simplesmente para estreitar os laços”, conclui o pesquisador.     

 

Texto: Samantha Nascimento da Silva