Tese une Design, Computação e Música para desenvolver ferramentas acessíveis de criação artística

Pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Música investigou as possibilidades da programação web para desenvolver instrumentos que não dependem do gesto musical

 

“A partir do momento que você consegue tocar um instrumento ou praticar uma improvisação livre, você passa a ter uma relação diferente com a música, que não é só uma relação de consumo.” Para Ariane Stolfi, autora da tese Música em Rede: experimentos em interação musical, as tecnologias de programação da web podem ser úteis tanto para artistas envolvidos com a produção de música experimental quanto para os apreciadores de música que não dominam a teoria e a prática dos instrumentos musicais tradicionais. 

Em um trabalho que interseccionou Design, Computação e Música, Ariane investigou as potencialidades de tecnologias como HTML, JavaScript e CSS para desenvolver novas interfaces de produção musical, voltadas para o uso online em dispositivos móveis e computadores. Esses princípios foram aplicados e avaliados em dois projetos desenvolvidos ao longo da parte prática da pesquisa: Banda Aberta, uma performance participativa na qual o público usa uma plataforma de chat anônimo que transforma letras em sons, fazendo com que cada mensagem de texto enviada se transforme em uma frase musical. O segundo projeto, intitulado PlaySound, é uma plataforma que funciona como um instrumento musical, tendo como base um acervo de milhares de sons disponibilizados em licença Creative Commons no site Freesound. Voltado principalmente para a prática de improvisação musical livre, o PlaySound dispõe de um buscador textual em que as palavras inseridas retornam sons e suas respectivas representações gráficas, chamadas de espectrogramas. No PlaySound, o usuário encontra sons musicais (solos de violino, por exemplo) e não musicais (como uma freada de carro), podendo fazer sobreposições, loopings, distorções e edições para criar uma peça sonora própria. 

Banda Aberta. Imagem: site Ariane Stolfi

A experiência dos usuários com o Banda Aberta e o PlaySound foi avaliada quantitativa e qualitativamente, por meio de formulários e de análises dos termos inseridos. Utilizadas tanto em performances solo como em grupo, as duas ferramentas foram bem recebidas pelos usuários, que buscaram perceber e explorar as potencialidades musicais por elas oferecidas. Um exemplo é a quantidade de mensagens “sem sentido” enviadas no Banda Aberta, constituídas por letras, números e outros tipos de caracteres embaralhados, o que demonstrou a intenção de utilizar a plataforma de chat como instrumento musical, expandindo a finalidade originalmente atribuída a este tipo de tecnologia. Em relação ao PlaySound, testes com grupos de improvisação musical foram importantes para ajustes ao longo do processo: “Vários feedbacks ajudaram a gente a melhorar, principalmente o controle dos processos musicais dentro do software; ou indicar perspectivas de futuro, como pensar em uma versão participativa da ferramenta", comenta a pesquisadora.

A tese evidencia o papel que o texto pode desempenhar como interface de produção musical, eliminando a necessidade do gesto musical, ou seja, o domínio da habilidade técnica de tocar uma determinada nota de um instrumento em um determinado momento. Segundo Ariane, essa foi uma das descobertas mais interessantes do processo de pesquisa: “o que eu tentei foi partir de uma coisa que as pessoas já sabiam, que é escrever.” Por outro lado, um dos desafios apresentados pelo trabalho foi a definição de metodologias científicas para avaliar produções artísticas e seus resultados. 

A autora ainda destaca como o uso de tecnologias a auxiliou na própria escrita da tese e dos artigos que publicou, citando ferramentas de gerenciamento de bibliografia e de formatação de textos científicos, como o LaTex, fundamentais para garantir uma extensa produção de conteúdo em pouco tempo.

Considerando os debates que vêm sendo travados entre pesquisadores de música experimental e de outras artes – como a importância de criar ferramentas e métodos para permitir que a produção artística ocorra também em contextos menos especializados, fora do circuito de galerias e exposições –, Ariane acredita que uma das principais contribuições da sua tese é oferecer meios para tornar mais acessível a possibilidade de criar. Por razões que vão de condições financeiras a discriminação de gênero, muitas pessoas não têm a oportunidade de frequentar uma escola de música ou adquirir um instrumento. Assim, plataformas como as desenvolvidas na pesquisa têm um papel importante tanto por possibilitarem o fazer artístico quanto por demonstrarem que a música está muito mais inserida em nosso cotidiano do que estamos habituados a pensar. “Para mim, [a pesquisa] tem a ver com uma ideia de mudar ou ampliar o papel que a música tem na vida das pessoas”, finaliza.