Disciplina sobre trajes de cena aproxima ECA e EACH

Quem andou pelos arredores do Teatro Laboratório da ECA nas últimas semanas, deve ter se deparado com alguns manequins, vestidos com roupas diferenciadas. Os trajes de cena expostos são resultado de um projeto de integração entre os alunos do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas (PPGAC), da ECA, e os estudantes de graduação do curso de Têxtil e Moda, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH). A ponte oeste-leste é uma autoria dos professores Fausto Viana e Isabel Italiano que, desde 2015, são responsáveis pela disciplina de traje de cena. 


Apesar do NÃO…, feito por Ana Laura Berg, Danielle Moura, Mitiko Medeiros e Thiago Ribeiro

A dinâmica é diferenciada. A disciplina, que é usualmente oferecida uma vez por ano, muda seu local de oferecimento a cada edição, para conseguir contemplar o máximo de alunos possível: uma vez na ECA, outra na EACH. 

Um dos segredos para o bom funcionamento e boa adesão à disciplina é o fato de que a montagem de um traje de cena interessa a ambas as partes, motivando os alunos a participarem. A complementariedade da formação dos docentes envolvidos também contribui para o desenvolvimento das atividades didáticas: “o conhecimento do professor Fausto no processo de criação de trajes de cena amplia, e muito, a formação dos alunos do curso de Têxtil e Moda. Além disso, parte dos nossos projetos de pesquisa sobre trajes históricos também entra em discussão nas aulas”, comenta Isabel. Os alunos, assim, têm acesso a um programa mais amplo e uma formação mais completa. 


CASCA, trabalho produzido por Guilherme Custódio, Maria Eduarda Borges e Vanessa Cardozo Texeira

A integração entre as duas escolas não é uma mera formalidade e os projetos expostos são a prova material disso. As equipes são formadas por três ou quatro pessoas, nas áreas de moda, modelagem e teatro. Os grupos dividiram entre seus integrantes os custos com a produção e outros recursos, como manequins e máquinas de costura, tinham disponibilidade nas escolas. Os alunos podiam trabalhar tanto no laboratório de modelagem da EACH como nas salas de aula do CAC. Na opinião dos docentes, a diferença na formação e na visão de cada um faz com que o processo criativo fique mais rico e interessante, sendo este um dos maiores triunfos. 

Mas, para chegar ao resultado que se vê exposto, é preciso um longo período de dedicação. Não apenas na montagem efetiva das peças – que dura aproximadamente um mês –, mas também na concepção da ideia principal. Os professores orientam os alunos durante todo o processo. “Eles discutem a proposta dos trajes de cena, as formas, materiais e seus significados na composição dos trajes – e vão fazendo alguns experimentos. Quando o conceito está pronto, passam para a produção, que envolve o tratamento do têxtil, a modelagem e a costura dos trajes”, diz a docente da EACH. 

Um dos conceitos explorados nesse primeiro semestre foi inspirado no conto A Cartomante, de Machado de Assis. O trabalho produzido por Maria Cecília Amaral, Luíza Laurindo e Maria Alice Alves traz elementos que remetem à obra do escritor brasileiro.


Figurinos para A Cartomante

 

Novo ano, nova proposta

Outro atrativo da disciplina, além da integração de cursos, é o fato de que, embora os princípios se mantenham os mesmos, todo oferecimento surge com uma nova proposta de tema. 

A definição de um eixo temático serve para orientar os alunos quanto às suas criações. Neste ano, a ideia foi fugir dos clássicos do teatro e dar ainda mais liberdade criativa. “Pensamos que era necessário um estilo menos realista, que pudesse permitir ao aluno a adaptação, a desconstrução dos trajes dos séculos 16, 18 e 19”, comenta Fausto. 


Do breu a terra – caminhos de transição planetária, de Anna Kühl, Eduardo Carvalho e Eliana Nakashima.

A ausência de uma proposta concreta de personagem ou encenação possibilitou que os alunos utilizassem seus processos criativos preferidos. Isso tornou as produções mais singulares, visto que a orientação entre os professores e os grupos permitiu um direcionamento diferente para cada uma delas. 

A disciplina oferecida pelos professores Fausto e Isabel mostra que a integração entre diferentes escolas é extremamente proveitosa. Além da oportunidade de crescimento para todos os alunos, é possível desenvolver uma nova forma de pensar a criação de figurinos. As etapas não são pensadas de forma individualizada, nas quais cada profissional dá sua contribuição separada. A contribuição é simultânea e conjunto, com todos trabalhando para um mesmo objetivo final: fazer um bom traje de cena. 

A exposição seguirá para o Espaço das Artes nas próximas semanas.

Texto e fotos: Maria Eduarda Nogueira