“A violência não existe por si só. Ela é sempre uma resposta”, diz Caco Barcellos

Em evento no Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da Escola de Comunicações e Artes (ECA),  o jornalista Caco Barcellos afirmou que “a violência é sempre uma resposta”. Citando o caso do jornalista Tim Lopes, morto por traficantes no Rio de Janeiro em 2002, ele afirma que “a imprensa é malvista nessas comunidades não só pelos traficantes”. Isso porque, para ele, os jornalistas só são vistos naquelas regiões junto com as ações da polícia, que é violenta com a população mais pobre.

Além de Caco Barcellos, participaram do seminário Segurança para quem fala: liberdade de expressão em toda a mídia, o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, presidente do Observatório da Imprensa, o blogueiro britânico Mark Hillary, que mora há dois anos no Brasil, e o professor Eugênio Bucci, do CJE. A chefe do departamento, professora Mayra Rodrigues, e a representante do Consulado-Geral Britânico de São Paulo, Barbara Reis, também falaram na abertura do evento, que foi idealizado e organizado pelo Consulado.


Auditório Freitas Nobre, no CJE, estava lotado de alunos de jornalismo durante o evento

Lins apresentou dados de que o assassinato de jornalistas nunca foi tão comum. “A Unesco registrou 121 mortes de jornalistas em 2012. O maior número de todos os tempos desde que esse dado é contabilizado. É o dobro do que houve em 2011 e em 2010”, afirma. Ainda segundo estes dados, o Brasil já matou quatro jornalistas em 2013. Desde 1992, foram 26 mortos, o dobro do número de mortos durante o regime militar, que durou de 1964 e 1985. “Nas Américas, o Brasil está em terceiro lugar. O primeiro é o México, o segundo a Colômbia e o terceiro o Brasil”.

O primeiro jornalista morto na história do Brasil foi Líbero Badaró, em 1830. “Desde o primeiro caso a impunidade já foi enorme. O mandante, Cândido Japiaçu, foi inocentado e o executante passou menos de um ano na cadeia”, conta Lins.

Caco Barcellos tem opinião ligeiramente diferente. Para ele, o jornalista não é tão vítima assim, pois os repórteres não cumprem seu papel. “Em um ano, o Estado matou 1.350 pessoas nas comunidades do Rio de Janeiro. Em um ano, três vezes mais que o regime militar matou em 21 anos. E qual foi o nosso papel de denúncia dessa violência? Nossa postura foi vergonhosa. Vergonhosa. O que justifica a gente ser chamado de inimigo dessas comunidades”, afirma.

Tanto Barcellos como Lins citaram que muitos jornalistas são assassinados em cidades pequenas. “Nessas cidades os jornalistas ficam mais vulneráveis a serem vítimas de violência quando criticam alguém. Numa cidade grande como São Paulo isso é mais difícil de contar”, afirma o jornalista do programa Profissão Repórter, da TV Globo.

Lins, por outro lado, conta que já sofreu ameaças em uma cidade pequena no Rio Grande do Norte. “Invadiram minha casa, mexeram nas minhas coisas. Fiquei muito assustado e dei um jeito de sair de lá depois de alguns meses”, conta.

Confira aqui conversa com o jornalista Caco Barcellos.

Regulação
O blogueiro britânico Mark Hillary foi o convidado que mais falou sobre projetos de regulação da mídia. Atualmente, o governo argentino tenta aprovar a Ley de Medios, que limitaria a quantidade de propriedades privadas de meios de comunicação por um mesmo grupo econômico, projeto que é tratado como censura pelos grandes meios de comunicação brasileiros.

“A regulação é importante enquanto houver jornalistas profissionais”, afirma.


Britânico Mark Hillary mora no Brasil há dois anos e comentou sobre regulação da mídia

Hillary também citou os recentes casos de abusos cometidos pela imprensa britânica e que mexeram severamente com as regras para os meios de comunicação naquele país, dando origem ao Inquérito Leveson, que analisou os grampos telefônicos ilegais de políticos e celebridades feitos por jornais locais. “O problema com o Leveson é que fala pouco sobre a internet e o jornalismo digital. Se o Brasil for discutir a regulação com base no Leveson, será preciso pensar além dele”, conta o jornalista.

No Reino Unido, a mídia já é regulada pelo órgão independente Ofcom e, na opinião de Hillary, os escândalos ajudam a criar mais transparências. “No Brasil vocês precisam de uma regulação geral sobre concessões públicas e imprensa. O Leveson seria um bom início, porque leva em conta a cultura, mas seria preciso melhorá-lo”, ressalta.

O evento Segurança para quem fala: liberdade de expressão em toda a mídia foi organizado pelo Consulado-Geral Britânico de São Paulo para comemorar o dia internacional da liberdade de imprensa, comemorado no dia 3 de maio.

Confira aqui conversa com o jornalista britânico Mark Hillary.

 

por Victor Francisco Ferreira
fotos  Eduardo Peñuela