“Somos acidentes sociais”: podcast discute a realidade de estudantes pobres na USP

USP para (Des)Privilegiados foi criado por aluna de Jornalismo da ECA como Trabalho de Conclusão de Curso

 

“Nós que conseguimos fugir das estatísticas somos acidentes sociais; a gente é uma exceção à regra”. A fala que abre o podcast USP para (Des)Privilegiados é de Thiago Torres, também conhecido como Chavoso da USP, um dos cinco estudantes que teve sua história de vida narrada por Carolina Marins em seu Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado no fim de 2020. O projeto expõe ao longo de seus seis episódios as dificuldades de ingresso e permanência de estudantes pobres na maior universidade do país.

Inspirada por notícias que tratam de histórias pontuais sobre estudantes que “venceram” na vida após um esforço absurdo e, em muitos casos, desumano, Carolina desejava debater o que ocorre por trás dessas manchetes, a realidade que permeia esses jovens que não são “gênios” ou “exemplos de superação” e sim vítimas da precarização do sistema educacional. Para ela, a ideia passada por esses noticiários é a de que “todo obstáculo pode ser vencido, como se pobreza fosse só um obstáculo e não um problema estrutural e social”.

Mas os relatos vão muito além da discussão jornalística. As histórias contadas refletem também sobre o racismo e a desigualdade social brasileira. “Que existem exceções você com certeza já sabe, afinal todos os anos as exceções viram notícias na imprensa, mas [...] você já refletiu o peso de ser uma exceção ou um acidente social? Ser a única pessoa da sua turma na escola que conseguiu chegar ao ensino superior público quando muitos dos colegas já foram vitoriosos só de terminar o Ensino Médio? Ser a pessoa que conseguiu se desvencilhar de um futuro traçado de pobreza e às vezes até de violência? Ser a pessoa que tem a responsabilidade de dar uma vida melhor aos pais e irmãos, não por obrigação, mas como retribuição por todos os anos de sacrifício?”, ela questiona em um dos episódios.

Defendido via YouTube por causa da pandemia de Covid-19, o projeto foi orientado pelo professor Luciano Maluly, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da ECA.

 

banner do podcast usp para (des)privilegiados
Arte de Bruno Kristoffer. Foto: Divulgação

 

Cinco histórias, uma jornalista, seis exceções

Foi graças ao apoio da família que Carolina conseguiu entrar na USP. Recém-formada em Jornalismo e agora repórter da editoria Internacional do portal UOL, ela nem sempre quis seguir essa profissão. Queria ser arquiteta. Quando começou a estudar para o vestibular, no entanto, percebeu que talvez não estivesse seguindo o rumo certo. O Jornalismo veio depois, em um impulso.

Mais um “acidente social”, ela conseguiu ingressar na USP e percebeu que sua luta não terminaria no vestibular. Dinheiro com xerox e livros, moradia e distância, trabalho, transporte e alimentação são questões recorrentes à grande maioria dos estudantes, mas outros pontos também fazem diferença na vivência universitária, como por exemplo o sentimento de pertencimento. “Começa a tocar em coisas que parecem fúteis, mas que mexem com sua vida social na universidade, como não poder ir em festas, não poder frequentar determinados lugares que seus colegas frequentam”, ela comenta.

Filha de um vigilante que já trabalhou na USP, o pai foi outra inspiração para que Carolina escolhesse esse tema para o seu TCC. “Eu via colegas no geral, via a forma como eles tratavam alguns funcionários como os seguranças, e eu pensava: ‘poxa, podia ser o meu pai’. E aquilo tocava tanto, doía tanto. Eu queria saber se aconteciam essas coisas com eles [entrevistados] também”.

A partir dessas experiências e sentimentos, o projeto USP para (Des)Privilegiados começou a tomar forma. O programa está dividido em cinco episódios, que contam as histórias de cinco estudantes, e um episódio extra, que traz a perspectiva acadêmica e jornalística sobre o assunto. Carolina explica que a divisão seguiu uma linha de raciocínio particular: “fazia sentido começar com a Kate, porque ela ainda estava prestando o vestibular; fazia sentido logo depois vir o Lucas, porque a gente emenda para permanência; aí veio o Thiago para falar de periferia; então eu ia começar o encaminhamento para o fim com a história da Lorrayne, falando o porquê do podcast; e fechava com o Guilherme, para questionar o nosso papel como jornalista”. 

 

foto de carolina marins, aluna de jornalismo da eca
A jornalista Carolina Marins, nascida e criada na zona rural de Cotia, na Grande São Paulo, ex-aluna de escola pública, filha de um vigilante e uma faxineira. Foto: Divulgação 

 

“Esse espaço tem que ser nosso”

Segundo reportagem do Jornal da USP, dados da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) apontam que o número de estudantes de baixa renda na USP está aumentando, apesar de ainda corresponder à maioria do corpo discente. Em 2020, 47,8% dos ingressantes cursaram todo o Ensino Médio em escola pública. Com relação à renda familiar bruta, 47,5% dos calouros têm renda entre um e cinco salários mínimos e 52,5% têm renda acima dos cinco salários mínimos. Quando os estudantes de baixa renda ultrapassam a barreira do vestibular, o desafio ainda continua: garantir a permanência na universidade.

A USP possui políticas de permanência organizadas pela Superintendência de Assistência Social (SAS), mas muitos alunos não são contemplados com bolsas por existir uma busca maior do que a universidade é capaz de suprir. Além disso, a permanência é mais do que vagas de moradia, alimentação e auxílios financeiros. É preciso garantir que esses estudantes se sintam parte integrante da comunidade universitária, já que muitos desenvolvem um sentimento de inferioridade ao entrar na USP e se depararem com realidades opostas às suas. Carolina exemplifica: “descobrir que alguns lugares culturais como teatro, cinema, biblioteca na Paulista, museu, é algo comum desde sempre na vida dos seus colegas e na sua não, porque você mora longe, você não tinha dinheiro pra essas coisas, você tinha outras preocupações”.

Segundo ela, é preciso que os mais jovens possuam referências e incentivo, para que entendam que eles também podem fazer parte de uma universidade pública. “A época do vestibular é muito difícil e a gente é muito novo para uma decisão tão importante. Mas se permita essa possibilidade enquanto você é novo e ainda tem um mundo para conquistar. É difícil sim, eu não vou mentir, é difícil demais. Mas a universidade pública é um direito, educação é um direito. Esse espaço tem que ser nosso”, é a mensagem que a jornalista deixa.  

Você pode conhecer mais sobre as histórias dos estudantes entrevistados e suas vivências na universidade ouvindo o podcast USP para (Des)Privilegiados, disponível no Spotify e no site do Universidade 93,7, programa da Rádio USP. 

 

 

Texto: Gabriela Schatz Queiroz
Arte de capa: Bruno Kristoffer