Como adaptar o jornalismo para as linguagens das redes sociais?

“Jornalismo não é a primeira coisa que vem à sua cabeça quando você pensa em TikTok. Mas, quem sabe, não se torna a segunda?”

 

Tornou-se comum que programas de televisão, jornais impressos e programas de rádio utilizem as redes sociais para interação com seu público e para aumentar o alcance de seus conteúdos. Entretanto, existe uma diferença entre esse uso corrente e a produção de conteúdo pensado especialmente para os formatos das redes, geralmente associadas ao entretenimento, com destaque para conteúdos de humor.

Como temas que dão origem a grandes reportagens podem ser tratados em um vídeo vertical de no máximo um minuto de duração? A partir dessa pergunta, o jornalista Ian Alves decidiu abordar em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) a atuação de veículos jornalísticos nesses novos formatos, com foco no TikTok, normalmente visto como uma rede de entretenimento.

Intitulado Jornalismo no TikTok, o trabalho realizado entre agosto e dezembro de 2020 partiu da premissa de que a maior parte do público de usuários do TikTok é formada por pessoas mais jovens, como crianças, adolescentes e jovens adultos. O sucesso da rede social chinesa levou o então estudante de Jornalismo a questionar: “se a sociedade está presente lá, por que o jornalismo não está?”.

O TCC, orientado pela professora Elizabeth Saad, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), é um recorte da realidade da produção jornalística na rede durante o período de análise, levando em consideração a velocidade com que as coisas acontecem e mudam na internet. Para isso, Ian entrevistou jornalistas de diversas partes do mundo e que estão presentes no aplicativo, como Sofía Altuna, responsável pelo TikTok do jornal argentino La Nación, e Francesco Zaffarano, ex-editor de redes sociais do The Daily Telegraph, entre outros.

A pesquisa reúne orientações sobre a linguagem específica da rede e sobre como utilizá-la para disseminar conteúdos jornalísticos. Para Ian, “o jornalismo tem que acompanhar as mudanças sociais, sejam elas no mundo físico ou no mundo digital”, e acrescenta, sobre a escolha do tema, que a "principal motivação foi acompanhar as mudanças da sociedade e estar presente como um agente social”.

 

Página inicial do site Jornalismo no Tik Tok, resultante do TCC de Ian Alves. Foto: Reprodução.

 

Além de entrevistar jornalistas da área, Ian passou a usar frequentemente a rede. Ele conta que consumir os conteúdos da plataforma de vídeos foi um hábito criado a partir de sua pesquisa. “Eu, todos os dias, me forçava a ficar vinte minutos pelo menos no TikTok, não necessariamente vendo coisas relacionadas à minha pesquisa, mas só usando para conhecer a plataforma. Depois eu tive que passar muitas outras horas vendo só coisas de jornalismo, mas foi algo que eu tive que me habituar por conta da pesquisa”, ele relata.

Apesar da motivação inicial para a pesquisa, Ian logo descobriu que o público do TikTok não se limita aos grupos mais jovens e reúne pessoas de todas as partes do mundo. Embora leveza, dinamismo e jovialidade sejam as principais características da linguagem do TikTok, há espaço sim para assuntos mais sérios.

O trabalho de pesquisa foi disponibilizado em um site, pensado como uma forma de garantir que o TCC pudesse alcançar outras pessoas interessadas no assunto, valendo-se de um formato mais acessível do que a tradicional monografia. “Eu queria mesmo que outros jornalistas pudessem ver, que pudesse servir como uma espécie de referência para estudantes de jornalismo, novos jornalistas ou pessoas que gostam do TikTok de um modo geral.”

Além disso, o site permite a inserção de vídeos para ilustrar a análise e que, a partir da divisão em seções, o leitor ou leitora tenha liberdade para explorar as subdivisões da pesquisa que mais lhe interessam sem a necessidade de ler todo o conteúdo do começo ao fim. A ideia, segundo Ian, é que “o próprio leitor constrói mais a sua linha narrativa”. O site também possui uma versão em inglês.

 

Novas tendências do jornalismo digital

Muito se fala das mudanças causadas no jornalismo pela expansão do uso das redes sociais e das tendências que surgem a partir disso. A ampliação do acesso a informação e comunicação com as redes colocou o jornalismo numa posição de constante adaptação aos novos formatos. Sobre isso, Ian afirma que “o jornalismo tem que se atualizar e chegar nos novos ambientes antes. Ele não pode chegar atrasado. O TikTok não pode estar consolidado, com bilhões de usuários e todas as empresas e todas as instituições sociais lá dentro e o jornalismo ainda não estar lá”.

Durante sua pesquisa, Ian identificou outras tendências que permeiam o jornalismo digital. Entre elas, destaca-se a tendência de as pessoas buscarem se informar por meio de pessoas e não de instituições, a exemplo de perfis de jornalistas e de profissionais de outras áreas. “Essa é uma tendência que dá para ser analisada não só da perspectiva de tentar pesquisar os perfis pessoais de jornalistas em redes sociais de modo geral, como também pesquisar como os veículos jornalísticos têm ‘pessoalizado’, não personalizado, as redes deles.”

Para o jornalismo, ocupar essas novas plataformas o quanto antes garante que “ele possa ser um agente social significativo naquele ambiente”. Ian ressalta que “muitos jornais ainda têm uma visão mais tradicionalista do que é o jornalismo e às vezes demoram mais do que deveriam para se atualizar e ocupar esses novos ambientes, especialmente os digitais”. Sua pesquisa é um lembrete para que jornalistas saiam dos lugares comuns da profissão e pensem em como utilizar formatos tão atraentes atualmente para além do entretenimento, fazendo jornalismo de fato com eles.

Além desse lembrete, Ian sugere que o TCC seja uma forma de explorar formatos e se arriscar em temas pouco conhecidos. Assim como ele não usava o TikTok e não havia criado nenhum site anteriormente, ele incentiva que “a pesquisa seja um momento em que você se desafie a fazer novas coisas que nunca fez, se desafie a tentar falar com pessoas que você acha que nunca poderia falar”, e abordar temas inesperados. “Eu deixo a sugestão para que outros estudantes também arrisquem e se joguem e vejam no que vai dar.”

Para conferir a pesquisa, acesse o site Jornalismo e TikTok.

 

Texto: Natália Milena
Imagem de capa: Natália Milena, com imagens de Freepick / Flaticon e Antonbe e Mohamed Hassan / Pixabay