Álvaro de Moya: uma vida em quadrinhos

Na abertura da quarta edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, na noite de 22 de agosto, Álvaro de Moya foi homenageado pelos organizadores, os professores Waldomiro Vergueiro, do Departamento de Informação e Cultura (CBD), Paulo Ramos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Nobu Chien (Faculdades Oswaldo Cruz).

"Eu me emociono em pensar nele, porque ele foi o meu grande mentor aqui na Universidade," disse Waldomiro. O professor foi responsável por relembrar a trajetória de Moya enquanto pesquisador essencial no estudo dos quadrinhos. Ele falou sobre sua influência e contribuição para o meio e os livros lançados pelo pesquisador, entre outros tópicos.

 A homenagem foi gravada e será veiculada no IPTV USP em breve.

Sobre Álvaro de Moya

Para aqueles apaixonados pelas histórias em quadrinhos, talvez Álvaro de Moya não seja um nome estranho. Talvez, ainda, seja um exemplo “de alguém que acreditou realmente nas HQs”, como comenta o professor Waldomiro. Falecido no último dia 14, aos 87 anos, Moya foi pesquisador, professor, jornalista e  ilustrador e contribuiu fortemente para a inserção dos quadrinhos nos estudos acadêmicos brasileiros.

O amor pela nona arte - modo como os entusiastas se referem às histórias em quadrinhos - começou ainda muito cedo, quando, segundo matéria do jornal Folha de São Paulo, copiava gravuras de seu ídolo, o quadrinista Alex Raymond. Leitor assíduo, organizou, em 1951, com apenas 21 anos, a primeira exposição de HQs do Brasil. “Ele escreveu para os autores nos Estados Unidos e na Europa pedindo originais“, conta Waldomiro. “Foi muito importante para chamar a atenção da sociedade para a qualidade das histórias em quadrinhos”.

Álvaro de Moya, em 1955. Foto: Pipoca e nanquim

A exposição foi o primeiro passo na carreira que o consagraria como um dos maiores estudiosos sobre quadrinhos no país. Pioneiro nas pesquisas na área, escreveu diversos livros, inclusive a obra Shazam, a qual vai além de olhar para os quadrinhos como simples entretenimento - livro de impacto, é, segundo Waldomiro, até hoje indicada como uma primeira leitura para aqueles que desejam se aventurar no mundo das HQs. “Foi a primeira obra que eu li na vida, assim como a de muita gente,” revela o professor. “Ele foi uma das primeiras pessoas que se dedicou a escrever sobre quadrinhos. Era a linguagem que ele valorizava”.

Apesar do interesse em quadrinhos, sua trajetória profissional não se resumiu a eles. Jornalista, trabalhou no jornal mineiro O Tempo como ilustrador, foi diretor da TV Excelsior e passou ainda pela TV Tupi, Rede Bandeirantes e TV Cultura. Tornou-se professor da ECA em 1970, dando aulas de televisão no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), onde permaneceu até a aposentadoria, em 1992.

Quando ainda integrava o corpo docente da ECA, em 1989, foi convidado, pelo professor José Marques de Melo, então diretor da Escola, a participar de uma comissão de eventos sobre histórias em quadrinhos, composta também pelos professores Waldomiro e Antônio Cagnin. A necessidade de produzir algo mais consistente, contudo, levou-os a propor a criação do Núcleo de Pesquisas Histórias em Quadrinhos, hoje chamado de Observatório de Histórias em Quadrinhos, uma referência na América Latina.

Foto: Notícias da TV

Além da carreira de pesquisador, Moya se aventurou na ilustração, tendo assinado uma série de quadrinhos Disney anonimamente, bem como tendo sido responsável por adaptar para a linguagem das HQs os livros A Marcha, de Afonso Schmidt, Macbeth, de William Shakespeare e a biografia de Zumbi dos Palmares.

“Ele era um homem de uma cultura muito vasta, um ótimo conversador e um sujeito extremamente bem humorado,” lembra Waldomiro. “Ele defendeu os quadrinhos em uma época que havia muita resistência. Foi um grande exemplo”.

Texto: Victória Martins
Foto de destaque: Folha de S. Paulo