Mostrando “Opinião”: Adamatti faz defesa de doutorado expondo a crítica cinematográfica do jornal nos anos de chumbo

Margarida Maria Adamatti defendeu a tese A crítica cinematográfica no jornal alternativo Opinião: frentismo, estética e política nos anos setenta em sua apresentação de doutorado, na sala de Congregação da ECA. A banca foi composta por Rosana Lima Soares (ECA), Marcos Napolitano (FFLCH), Rubens Machado da (ECA) e Arthur Autran (UFSCar). O orientador é o professor do Departamento Cinema, Rádio e Televisão (CTR) Eduardo Morettin. Os críticos de opinião Jean-Claude Bernardet, José Arrabal e Júlio Cesar Montenegro assistiram à defesa de doutorado.

Na pesquisa, Margarida conversou com nomes de grande relevância na fundação do Opinião, que circulou de 1972 a 1977, e consistia em um periódico de diagramação simples, em um formato com quatro colunas, e que se propunha a inovar no setor da crítica cinematográfica. “Um jornal que não defende interesses pessoais, não pertence a nenhum partido, não é porta-voz de qualquer ideologia e se recusa a aceitar um volume de publicidade que ultrapasse a 20% de sua receita”, dizia as primeiras linhas da edição 00. "A importrância do jornal foi trazer nomes de relevo entre os intelectuais e jornalistas de grande peso. Trata-se de um jornal que é parte da resistência cultural ao regime militar", diz Margarida. Entre os críticos de cinema escreviam para o jornal Claude Bernardet, Sérgio Augusto, José Carlos Avellan e Clóvis Marques.


A banca escuta a defesa de Margarida Amadatti

 

A ideia inicial de seu idealizador, Fernando Gasparian, era montar um semanário que permitisse discussões e debates intelectuais, inspirado no inglês The New Statesman. “Foi uma união de pessoas extremamente capacitadas e que lutaram pela realização de um sonho, que tinha como nome Opinião”, diz Margarida. A ditadura, em seu período mais árduo, levou mais para o lado do pesadelo.

Nos anos de 1973 e 1974 alguns textos mandados eram cortados por inteiro, verdadeiramente mutilados pelos censores. Por isso, nesse período ele assinou como Carlos Murao. Um policial chegou a apontar o dedo em riste ao rosto de Gasparian e dizer: “Vou te matar”. Enquanto os outros jornais podiam abordar certos assuntos, o Opinião não podia sequer mencionar. “Eles começaram a escrever nas entrelinhas, criaram códigos com os leitores e talvez apenas os censores não percebiam", propõe Margarida.

A pressão e a opressão são apontadas pelos integrantes como uma das causas, se não a principal, do término das publicações em 1979. Margarida concorda com a tese, mas diz ter levantado também outro fator durante suas pesquisas e entrevistas. “No livro do Bernardo Kuscinski (correspondente do Opinião em Londres e um dos mais assíduos participantes da periódico), Jornalistas e Revolicionários, há a informação de que havia uma briga interna muito forte por questões salariais, esse fator certamente influenciou na dissolução do jornal”.

Outra percepção de Margarida no estudo é a de que o jornal antecipou e acompanhou a dissolução da esquerda, retratando em sua redação uma crítica interna da esquerda contra membros de si própria. O certo é que foi um trabalho que marcou um combate ao período mais negro da história do Brasil. “Era uma batalha produzir o conhecimento que eles faziam, cheio de críticas culturais e políticas. Era uma oposição direta ao regime militar”, finaliza.

 

Texto: Felipe Ruiz
Fotos: Eduardo Peñuela