Revista Sala Preta se despede com uma homenagem ao Teatro Oficina

Após 20 anos trazendo discussões sobre a arte do teatro, a revista Sala Preta lança seu último número, dedicado ao Teatro Oficina Uzyna Uzona

 

A revista Sala Preta, publicação do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), se despede de seus leitores lançando seu último número, após uma temporada de 20 anos cuja atriz principal em cena foi a arte do teatro. Esse último cenário está criado para consagrar, segundo os docentes Sílvia Fernandes e Luiz Fernando Ramos, editores da revista, “o experimento mais longevo, singular e potente da teatralidade brasileira: o Teatro Oficina, hoje renomeado Uzyna Uzona”.

A importância do Oficina vai além das fronteiras brasileiras, tendo sido palco de várias peças antológicas que se tornaram símbolos de uma criatividade revolucionária e transformadora, impactante em suas propostas levadas com empenho pelo aclamado e polêmico ator, diretor e dramaturgo Zé Celso Martinez Correa, que entrelaça sempre arte, teatro e vida.

O Teatro Oficina sempre percebeu a vida como “devoração, na inspiração da antropofagia de Oswald de Andrade”, valorizando o coletivo ao invés do individualismo, deixando de lado o teatro de ideias, de metafísica, aquele pronto a transmitir mensagens moralizantes em cena. O psicanalista Mauro Meiches, no artigo A cidade se cura no teatro, publicado neste último número da revista, pesquisou o Oficina e lançou sua tese no livro Uma pulsão espetacular. Intrigado pelo que ouvia, lia e via nos espetáculos do Oficina e na figura de Zé Celso, fascinou-se por esse teatro na época de acontecimentos das décadas de 1960 e 1970 como a contracultura, a revolução sexual e a anarquia como opção de vida. Meiches relata a época da ditadura militar e a representação do teatro, sempre na espreita da censura, como resistência política “de legado inestimável para a minha e as gerações seguintes”.

O objetivo do estudo é estabelecer as relações entre o trabalho do grupo Oficina e o “conceito psicanalítico de pulsar”, ideia inspirada e observada na ânsia da absoluta liberdade de expressão do sentido da arte e da vida. Assim, o Oficina driblou a ditadura “pelo questionamento do próprio teatro e suas formas num movimento crescente, impossível de deter”, insubmisso, convidando a plateia a participar, estimulando o pensamento crítico “de uma classe média inquieta que buscava o teatro para respirar”, para se curar, para se enxergar, observar, confrontar-se junta da/com a arte do teatro.

 

Cena da peça O Rei da Vela

Cena de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, montada pelo Teatro Oficina em 1967, direção de José Celso Martinez Corrêa. Foto: Divulgação CosacNaify via Revista Pesquisa / Fapesp.

 

Obras como O Rei da Vela, Roda Viva, Na Selva das Cidades, Gracias, Señor compõem um grito de protesto contra uma sociedade hipócrita e autodestrutiva, com a proposta de uma visão de mundo que subverte, que desconstrói o que já não serve, representando o desmantelamento do teatro em sua conformação de então. “Zé Celso sempre falou que o teatro purgava a cidade, o mundo, o homem, em um ato de cura pelo ‘canto do bode’ ”, relata Mauro Meiches. O rito teatral é milenar porque nossas feridas se reabrem de novo a cada dia e, transformadas ou não, constituem-se em um eterno pulsar inerente à saúde como vida plena.

O texto se insere entre a arte do teatro e a psicanálise, gerado pela observação e conhecimento do Oficina, de Zé Celso e do Uzyna Uzona em que o conceito de pulsão foi vital para sua pesquisa, a saber, o instinto de sobrevivência que passa pela sexualidade vista como a não negação do corpo. “É importante sublinhar que há uma urgência na satisfação da pulsão”, explica o autor.

O Uzyna era e é palco de realização do impulso criador, pelos atores e plateia atuando juntos, um verdadeiro desafogo da repressão em todos os sentidos. A publicação Oficina Samba define: “O teatro é o meio dos homens se entenderem em seu verticalismo, sem obediência. É esse o movimento, o curso do nosso trabalho”. O Oficina é, sem dúvida, integrante das perguntas eternas do ser humano: “Quem somos? O que queremos? Qual teatro fazemos?”, vistas a singularidade, a resistência e a persistência desse teatro irreverente que conta com um público saudoso, que há muito integrou, há 60 anos, o Oficina dos primórdios em sua vida, e com o público de hoje, que compartilha, no cotidiano, o que vive no Uzyna Uzona.

Completando a homenagem ao último número da revista Sala Preta, o fotógrafo João Caldas, em seu artigo Fotografando no Teatro Oficina, brinda-nos com uma série de fotos das peças do Oficina, com a sempre presença de Zé Celso. João Caldas conta que, em sua trajetória de 40 anos como fotógrafo teatral, “nada chega perto do que acontece no Teat(R)o Oficina Uzyna Uzona […] No verbete, oficina é o ‘lugar onde se exerce um ofício, fábrica, laboratório, usina, local para elaborar, fabricar, consertar’”.

A pandemia deixa saudade no fotógrafo e também nas plateias do tempo em que “o contágio era da alegria, do calor, dos cheiros, dos corpos e das vibrações que aconteciam nos espetáculos”, características inerentes do Oficina de ontem e o de hoje, o Uzyna Uzona, lembrando a importância do espaço aberto da rua, que foi e é parte integrante das encenações, pois a plateia entra no teatro junto dos atores, ou, ao contrário em alguns espetáculos, plateia e atores saem juntos para a rua, em uma “grande apoteose e celebração teatral”.

 

Texto: Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

Originalmente publicado no Jornal da USP