2020: Lançamento da Revista Sala Preta 20.1

Revista Sala Preta

Realizada num momento crítico, que conecta o pânico com a pandemia global ao caos político de um período desastroso da República, esta edição de Sala  Preta  expressa,  no  tema  de  parte  de  seus  artigos,  e  na  forma  da  maioria deles, o movimento oscilante do tempo.
 
É, por outro lado, uma edição que prepara uma despedida de sua equipe editorial, algo que se efetivará no fim do ano de 2020. No breve tempo em que fomos  responsáveis  pela  publicação,  procuramos  superar  as  dificuldades  de  adaptação técnica aos novos sistemas eletrônicos de edição, e manter a qualidade do excelente projeto original dos idealizadores da Sala Preta, os professores Sílvia Fernandes e Luiz Fernando Ramos. Nossa equipe foi composta pela professora  Elizabeth  Azevedo,  da  Universidade  de  São  Paulo (USP),  pelos  pesquisadores Paulo Bio Toledo (agora professor da UFMG) e Rafaella Uhiara e  por  mim. Nossa  modesta  contribuição  neste  período  foi  tentar  expandir  o  interesse da revista em reflexões históricas ligadas ao Brasil, como um contramovimento, na medida em que esse interesse se tornou raro nos estudos de artes cênicas do país. 
 
Pudemos conhecer, por outro lado, a rigidez de um sistema de normas e avaliações que obriga as publicações científicas a se comportarem como uma máquina de preenchimento de páginas com vistas a metas de produtividade e de internacionalização. Tais regras tornam desnecessário, e mesmo desaconselhável, o trabalho ativo dos editores, que devem antes atuar como gestores de um aparato técnico, com seus pressupostos de valores que não parecem ter como prioridade a produção de conhecimento socialmente consequente. 
 
Na contramão disso, optamos em acolher nesta edição trabalhos de sentido mais livre, ensaístico, e mesmo textos que não são inéditos, muitos apresentados por professores do Departamento de Artes Cênicas da USP – conhecidas quebras de decoro nesse sistema de valorações dos quais nos afastamos agora com alegria, sem que isso decorra de nenhuma febre pandêmica. 
 
Assim, a edição publica uma tradução inédita feita por Kimiko Uchigasaki Pinheiro  e  Maria  da  Glória  Magalhães  dos  Reis,  de  uma  peça  do  autor  japonês  Yukio  Mishima.  Divulga  também  a  contribuição  de  um  jovem  pesquisador  francês do teatro politizado, Olivier Neveux, ao lado de uma carta do encenador Matthias Langhoff, num conjunto que indica o momento de dificuldades por que passa o melhor teatro europeu e o empenho de dialogar com a tradição em crise.
 
O número contém, ainda, um bonito texto pessoal escrito pelo pesquisador e músico Zebba Dal Farra sobre a montagem de Zumbi, ocorrida em Portugal, com direção de Augusto Boal, entre diversos outros artigos que retratam pontos de vista incomuns e que procuram conectar passado e futuro do teatro, diante de um presente tão instável. 
 
Procuramos, enfim, dar lugar a debates que registram diferentes pontos de vista sobre a cena contemporânea do Brasil, com a esperança de que o direito à exposição de visões com base em argumentos seja o elemento que permita o avanço comum. Se é fato que a forma da tragédia ateniense se fundava no embate de valores contraditórios, em face da convivência social, também se pode  observar  nessas  obras  que  a  proclamação  de  tragicidades  absolutas  e  metafisicantes é sempre autoritária: a catástrofe maior, segundo aquela visão teatral, é gerada pela anulação do outro. O caráter atípico da edição é, portanto, um convite a uma nova produtividade que se oponha às homogeneizações dominantes, que facilite movimentos coletivos e vivos, aqueles que nascem de divergências necessárias, mas que visam a uma autossuperação que depende da compreensão e do aprendizado com as diferenças. 
 
Sérgio de Carvalho
Publicado em 12/08/2020
 

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