Nota de pesar: falece o professor Marcelo Denny, do Departamento de Artes Cênicas

Pesquisa e intenso trabalho artístico do docente eram marcados pelo cruzamento entre performance, teatro visual e dança

 

Faleceu nesta segunda-feira, dia 31 de agosto, o professor Marcelo Denny de Toledo Leite, do Departamento de Artes Cênicas (CAC). Na ECA há quase 20 anos, Marcelo Denny lecionava na graduação, em disciplinas ligadas à cenografia, direção teatral e práticas performativas, e também era professor do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas.

 

Foto: Reprodução/ marcelodenny.com

 

Reproduzimos a seguir a nota de pesar do CAC, escrita pelo professor e colega Ferdinando Martins

Morreu nesta segunda-feira, dia 31 de agosto, Marcelo Denny, professor do Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP há 18 anos. Diretor teatral, cenógrafo, professor, artista plástico, performer, pesquisador, curador e diretor de arte, Denny destacou-se por conciliar sua produção artística com o trabalho acadêmico. Seus maiores interesses de pesquisa eram o corpo e as visualidades contemporâneas, navegando entre o teatro experimental, a performance e as artes visuais. Como cenógrafo e diretor de arte, criava silhuetas corporais que expressassem as angústias e os impasses de nosso tempo. 

Junto com o coletivo Teatro da Pomba Gira e o Laboratório de Práticas Performativas da USP, Denny desenvolveu nos últimos anos os espetáculos Anatomia do Fauno, Demônios e Sombras, todos experimentos híbridos de performance, teatro visual e dança. Anatomia do Fauno e Demônios foram construídos a partir de vivências pessoais dos artistas do grupo no universo homoerótico. Sombras tratava da censura e da perseguição a escritos homossexuais e integrou a programação do projeto A biblioteca à noite, do diretor de teatro canadense Robert Lepage, apresentada no Sesc Avenida Paulista.

Com o Desvio Coletivo, outro grupo com o qual contribuiu intensamente, dividiu a direção do espetáculo Pulsão e das performances Cegos e Matrimônios com Marcos Bulhões, seu amigo de longa data e também professor no CAC e no Laboratório de Práticas Performativas. Cegos foi realizada em dezenas de países e escolhida para representar o Brasil na quadrienal de cenografia World Stage Design, em Taiwan (2017). No ano passado, Denny e Bulhões apresentaram em Nova York Banho de Descarrego, performance que refletia criticamente sobre o avanço de movimentos autoritários e conservadores. 

Em 2019, esteve como pesquisador visitante no Instituto Hemisférico de Performance e Política, da Universidade de Nova York, onde desenvolveu parte de sua pesquisa de pós-doutorado Arquiteturas do Corpo: novas percepções, processos compartilhados e potências na performance contemporânea, realizada na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). 

Denny foi também o responsável pela cenografia dos dois últimos espetáculos da Companhia de Teatro Heliópolis, Sutil Violento e (In)justiça, nos quais buscou uma tradução visual para a violência e exclusão de moradores das periferias das grandes cidades brasileiras. Como autor, publicou os livros Gênero Expandido-Performance e Contrassexualidades e Cenografia Digital na cena contemporânea (ambos pela Editora Annablume). No momento, estava concluindo a redação de um novo livro sobre arquiteturas do corpo e iniciava a pesquisa para um novo trabalho cênico fruto de reflexões sobre ressonâncias da pandemia de Covid-19. 

Denny deixa um legado e muito admiradores, especialmente de gerações mais jovens. Como poucos, manteve-se atento às mudanças na contemporaneidade e soube transmiti-la para alunos e artistas iniciantes. Expressou o que há de melhor na Universidade: a busca pelo conhecimento aliada a uma ética pessoal e a vontade de ensinar.